4 de março de 2021

Cistos ovarianos atrapalham a fertilidade? Devo me preocupar?

Os cistos ovarianos são comumente confundidos com miomas. Mulheres que querem ser mães costumam ter muitas dúvidas sobre eles. Elas se preocupam, sobretudo, com o seu impacto na fertilidade. Mas, é importante desmistificar certas preocupações. Isso porque, eles raramente deixam a mulher infértil.

Os cistos são uma lesão benigna formada pelo acúmulo de conteúdo líquido, sólido ou pastoso. O seu formato lembra uma “pequena bolsinha”. Ele pode surgir em várias partes do organismo. Além do ovário, portanto, existem também cistos nos rins, no fígado, na mama, etc.

A diferença do cisto com o mioma é que este último é um nódulo sólido no útero. Já o cisto no ovário possui conteúdo líquido em seu interior. Ele também pode ter diferentes classificações. O cisto hemorrágico, por exemplo, é uma delas. Ele é formado durante o ciclo menstrual, mais comumente após a ovulação. Esse tipo de cisto surge quando um pequeno vaso sanguíneo se rompe e sangra no interior do óvulo.

O cisto hemorrágico é chamado de funcional. Ele ocorre no óvulo em crescimento, durante o ciclo ovulatório da mulher. Na maioria das vezes, contudo, desaparece sozinho.

Mas o que são os cistos ovarianos funcionais?

Os cistos funcionais (foliculares, de corpo lúteo e hemorrágicos) se formam a partir do funcionamento normal dos ovários.

“Todo mês, durante o ciclo menstrual, um cisto da ovulação se desenvolve no ovário. Ele vai crescendo até a fase da ovulação. Nela,  atinge em torno de 18 a 23 mm. No dia em que a ovulação ocorre, ele se rompe e, dele, nasce um óvulo”, explica a Dra. Milena Elisa Goes Dias da Silva (CRM /SP 141.626). A ginecologista é especialista em reprodução assistida. Além disso, também integra a equipe do Centro de Reprodução Humana de Piracicaba (CRHP).

Estes cistos são, portanto, normais. Toda a mulher em fase fértil vai tê-los nessa primeira fase do ciclo menstrual. Entre eles, os cistos foliculares são os mais frequentes. Eles se desenvolvem durante a ovulação, quando o óvulo não se rompe. Neste caso, portanto, não  há ovulação no ciclo. O resultado é a formação de um cisto repleto de fluido, envolvendo o folículo.

Já os cistos de corpo lúteo, formam-se a partir da rotura desse óvulo, liberando o folículo. Logo após o seu rompimento para liberação do óvulo, ele volta a se fechar. Assim, passa a acumular líquido em seu interior. O cisto de corpo lúteo costuma ter mais de 3 cm de diâmetro. Ele, entretanto, também desaparece espontaneamente após algumas semanas.

Quais outras categorias de cistos ovarianos existem?

Os cistos não funcionais incluem os cistos dermóides (teratoma cístico), cistadenoma e os cistos endometrióides.

“Estes cistos são normalmente benignos e se formam como consequência de um crescimento anormal das células. É importante o acompanhamento médico no seu tratamento”, alerta a especialista em reprodução assistida.

O cisto no ovário pode virar câncer?

Não, o cisto de ovário não vira câncer. No entanto, ao se visualizar no US uma imagem compatível com cisto é preciso certificar-se de que se trata apenas de um cisto benigno e não de um câncer.

“O câncer de ovário costuma se apresentar como um tumor sólido no ovário. Em alguns casos,  no entanto, ele pode ter uma aparência parecida com a de um cisto”, explica a ginecologista.

Os cistos foliculares, de corpo lúteo, endometriomas ou cistos dermoides, em sua maior parte, são facilmente distinguíveis pela ultrassonografia ou ressonância magnética. Assim, não há muita confusão com tumores malignos.

Quais são as causas dos cistos?

Como já vimos, os cistos ovarianos funcionais geralmente têm origem fisiológica. Eles surgem pelo processo natural da ovulação, por estímulos hormonais do ciclo da mulher e, na maioria das vezes, desaparecem sozinhos.

Há cistos também que ocorrem devido à endometriose. No entanto, as causas dos cistos nem sempre são conhecidas.

Os cistos ovarianos podem ocorrer em qualquer faixa etária. As mulheres em idade reprodutiva, no entanto, têm maior probabilidade de tê-los. Dentro desse público, as que não usam pílulas anticoncepcionais estão também mais propensas a ter esses cistos funcionais.

O cisto pode atrapalhar a fertilidade?

É raro um cisto no ovário causar infertilidade. No entanto, ele pode dificultar a concepção. Isso ocorre devido às alterações hormonais que provoca.

Um exemplo são os cistos de endometriose ou cistos maiores. Estes, podem distorcer a anatomia pélvica, principalmente, as tubas uterinas. Essas são situações que dificultam, portanto, a gestação.

Além disso, as pacientes com cistos de grandes proporções devem ficar atentas aos sintomas. A razão disso é que esses têm mais chance de romper ou sofrer uma torção. Na maioria das vezes, o tratamento é a retirada desse ovário. Isso compromete, em parte, a fertilidade da mulher.

Os cistos funcionais costumam medir de 3 até 6 cm. Os teratomas, cistadenomas podem ter um volume maior, de 10 até 20 cm.

Quais são os sintomas?

Os cistos podem causar dor no baixo ventre durante a menstruação e durante as relações sexuais. À medida que aumentam de tamanho, podem, eventualmente, romper-se e o sangue atingir a cavidade abdominal.

Entretanto, na maior parte dos casos, os cistos nos ovários passam despercebidos. Eles são diagnosticados durante um exame ginecológico de rotina.

Como é feito o diagnóstico?

O médico pode fazer o diagnóstico com informações sobre a história clínica da paciente, exame físico e exame de imagem como o US pélvico ou transvaginal.

Quais são os tratamentos?

O tratamento depende do quadro clínico da paciente. Avalia-se, por exemplo, se  houve  o rompimento do cisto. Além disso, leva-se em cona se a paciente está estável. Outra coisa a ser verificada, é se o cisto tem grandes dimensões.

“Temos que ter em mente que os ovários têm importância fundamental para produzir óvulos e hormônios femininos. Assim, tem que ser abordado de maneira cautelosa para não prejudicar sua função em definitivo”, diz a especialista.

De acordo com ela, normalmente, não é necessária intervenção cirúrgica, mesmo nos casos em que o cisto se rompeu.

“A conduta expectante, quando possível, é preferível. Toda cirurgia, por mais cuidadosa que seja, leva, em maior ou menor grau, a perda de tecido ovariano saudável. Desta forma, nas mulheres que desejam ter filhos a conduta cirúrgica deve ser cautelosa”.

Por outro lado, as mulheres com idade por volta dos 50 anos podem seguir um protocolo de tratamento diferente. Isso porque, o médico pode fazer a indicação cirúrgica. Essa decisão leva em conta se a lesão apresenta maior risco de malignidade.

Quando não é possível descartar um tumor através de exames de imagens, o cisto deve ser retirado cirurgicamente. Neste caso, ele precisa passar por uma avaliação histopatológica (biopsia).

Quando a reprodução assistida pode ser considerada?

A presença de um cisto no ovário é algo bastante comum e não impede a mulher de engravidar.

O que pode acontecer é a dificuldade dessa gravidez acontecer devido às alterações hormonais no organismo e, como consequência, uma maior dificuldade para ovular.

Nesses casos, a mulher deve procurar orientação médica para uma avaliação cuidadosa.

Pacientes que perderam o ovário após uma cirurgia de cisto, podem fazer o congelamento de óvulos ou embriões. Isso previne a infertilidade caso o mesmo problema ocorra no outro ovário.

Sendo assim, a mulher estar sempre atenta aos sinais do seu corpo é, portanto, essencial. Isso contribui para encontrar soluções que as beneficiem a realizar seus objetivos.

O Centro de Reprodução Humana de Piracicaba está instalado no Hospital Santa Isabel, graças a uma parceria com a Santa Casa de Piracicaba.

Jornalista responsável: Arlete Maria Antunes de Moraes. MTB 0084412/SP.

Dra. Milena Elisa Goes Dias Silva
Dra. Milena Elisa Goes Dias Silva

Dra. Milena Elisa Goes Dias Silva

Ginecologista | CRM/SP 141.626
  • Formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
  • Pós-graduação em infertilidade e reprodução humana pela Faculdade de Ciências médicas da Santa Casa de São Paulo/Projeto Alfa
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