21 de janeiro de 2021

Malformações uterinas: como elas podem afetar a fertilidade?

Defeitos genéticos, de formação e até mesmo alterações epigenéticas podem ocasionar malformações uterinas. O problema, também chamado de anomalias Müllerianas congênitas, prejudica a fertilidade dependendo da sua especificidade. Abortos recorrentes, por exemplo, são uma consequência dessa condição.

O ginecologista Dr. José Higino Ribeiro dos Santos Jr. (CRM 80.719), explica que o diagnóstico é feito por meio de um ultrassom de rotina e também através da histeroscopia.

No procedimento, um instrumento chamado histeroscópio é introduzido através da vagina da paciente. O aparelho possui uma microcâmera, que capta imagens e ao mesmo tempo as transmite para um monitor de TV. Assim, é possível identificar e até mesmo diferenciar de qual tipo de malformação se trata. A técnica é considerada o padrão-ouro tanto para a descoberta do problema, quanto para o seu tratamento.

O médico, que é especialista em videolasparocopia e videohisteroscopia pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), integra a equipe de especialistas em reprodução assistida do Centro de Reprodução Humana de Piracicaba (CRHP).

O que são malformações uterinas e quais são os seus sintomas?

Normalmente, o formato do útero é semelhante ao de uma pêra invertida. Acontece que, em mulheres com malformação, ele pode ter apenas metade do tamanho convencional ou uma fenda que o separa em duas partes, por exemplo.

As causas dessa condição podem estar relacionadas com a genética (hereditariedade) e até mesmo com alterações epigenéticas. Essas são causadas por situações vivenciadas pela mãe durante a gravidez. Como exemplo, podemos citar: doenças infecciosas, uso de alguns tipos de medicamentos e intoxicações.

As anormalidades ocorrem quando há falhas no período de desenvolvimento do útero, que acontece durante a 12ª semana de gestação.

Geralmente as malformações uterinas são assintomáticas. Há, porém, como explica o especialista do CRHP, sinais que podem ser levados em conta. Um sintoma grave relacionado, por exemplo, é a ausência de menstruação. Além disso, quando a mulher menstrua, mas têm abortos repetitivos, é necessário investigar se essa pode ser uma consequência do problema.

Tipos de malformações uterinas: septo uterino

Existem vários tipos de malformações uterinas.  A mais comum delas é o septo uterino. Nessa condição, o útero fica dividido por uma estrutura chamada de septo, um tipo de membrana. “Ela fica bem no meio do útero, como se fosse uma parede, dividindo-o em dois”, explica o médico. “O grande problema é que no momento que a paciente engravida, o embrião implanta-se nessa parede e ela não tem vascularização, não tem estrutura para mandar os nutrientes para o feto”, complementa ele.

O septo uterino é passível de correção. Ela pode ser feita por meio da histeroscopia cirúrgica, que irá retirar a parede que separa o útero. Para isso, a paciente recebe anestesia geral ou raquidiana e pode ir para casa no mesmo dia. A cirurgia dura de 30 minutos a 1 hora.

Se essa for a única razão que leva à infertilidade, após remoção do septo, é possível que a paciente engravide espontaneamente ou que o desenvolvimento da gestação ocorra normalmente, se ela já sofreu um aborto anteriormente, já que as dificuldades de suplementação e oxigênio, além do menor espaço devido à presença do septo, estarão solucionadas.

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Útero bicorno, didelfo, arqueado e unicorno

Nem todas as malformações uterinas precisam de cirurgia. São os casos, por exemplo, dos úteros bicorno, didelfo (dois úteros) e arqueado, condições que não causam infertilidade.

O útero bicorno apresenta uma fenda na sua área superior. Isso faz com que ele fique separado em dois, mas não dividido. Mais visualmente falando, é como se tivesse o formato de um coração.

Apesar de não prejudicar a fertilidade e não ser sintomático, a presença dessa má formação congênita pode aumentar a incidência de parto prematuro (já que há menor espaço para o bebê crescer), de cesáreas (devido à posição pélvica do feto), entre outras complicações.

O útero didelfo, é aquele em que a mulher possui dois úteros, em decorrência de uma falha no processo de fusão dos ductos paramesonéfricos ou ductos mullerianos. Nesse caso a gravidez espontânea também é possível, embora possa haver também uma chance maior de aborto espontâneo e parto prematuro.

No caso do útero arqueado existe uma pequena alteração na cavidade uterina, que fica com uma curvatura levemente achatada. Sua interferência na gravidez é mínima e as gestações podem seguir, muitas vezes, sem complicações.

Vale ressaltar que o útero unicorno, aquele que apresenta apenas metade do tamanho normal, tem somente uma tuba uterina, mas apresenta dois ovários, é responsável sim por causar infertilidade, além de abortos de repetição e partos prematuros. Assim como os demais, no entanto, ele não possui opções cirúrgicas. Nesse caso, pode haver a necessidade da realização de um tratamento de reprodução assistida, assim como em outros casos de malformações, conforme explicamos a seguir.

Como a reprodução assistida pode ajudar?

Há formações uterinas que possuem características mais graves e para as quais somente um útero de substituição pode ajudar quem quer ser mãe. É o caso da agenesia (Síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser), condição em que a mulher não tem útero e 2/3 superiores da vagina. Os ovários, no entanto, estão presentes e funcionam normalmente.

Para a doação temporária de útero, a “doadora do útero” precisa ser parente de até quarto grau (mãe, irmã, tias e primas). Além disso, ela não pode ser remunerada por isso.

A gravidez é possível por meio de uma fertilização in vitro. No procedimento, o especialista em reprodução assistida utiliza o óvulo e o espermatozoide do casal para formar o embrião. Depois ele é transferido para o útero da doadora temporária.

O Centro de Reprodução Humana de Piracicaba está instalado no Hospital Santa Isabel, graças a uma parceria com a Santa Casa de Piracicaba.

Jornalista responsável: Arlete Maria Antunes de Moraes. MTB 0084412/SP.

 

Dr. José Higino Ribeiro dos Santos Jr.
Dr. José Higino Ribeiro dos Santos Jr.

Dr. José Higino Ribeiro dos Santos Jr.

Ginecologista | CRM 80.719
  • Formado em Medicina pela Unicamp
  • Especialista em videolasparocopia e videohisteroscopia pela Febrasgo
  • Residência médica especializada em reprodução humana assistida e Endoscopia ginecológica pela Unicamp.
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