22 de abril de 2019

Quem tenta ter filhos precisa de apoio emocional

Se a tentativa de engravidar não deu certo durante um ano, é hora de procurar um especialista em reprodução humana. Neste momento, são comuns diversos questionamentos. De quem é o problema de infertilidade? Será que, um dia, vou conseguir realizar meu desejo de ter filhos? E se não der certo, tento novamente?

Nesta entrevista, concedida ao site do Centro de Reprodução Humana de Piracicaba, a psicóloga Marília Manarim Cordeiro (CRP 06/107430), da Santa Casa Saúde Piracicaba – instituição da qual o Centro de Reprodução Humana de Piracicaba é parceiro -, fala sobre a importância do acompanhamento psicológico paralelo ao tratamento em uma clínica de fertilização.

– Depressão e ansiedade prejudicam a fertilidade?

A depressão e a ansiedade afetam tanto o âmbito emocional quanto físico da paciente. Desta forma, podem contribuir para uma alteração com relação à fertilidade da mesma. Por isso, caso a paciente esteja em tratamento de infertilidade, é válido receber o acompanhamento psicológico, uma vez que há relação emocional. Sentimentos como culpa, baixa autoestima, medos, tristeza, ansiedade e estresse podem aparecer durante o tratamento, prejudicando sua eficácia.

– Qual a importância do acompanhamento psicológico durante os tratamentos de reprodução assistida?

O acompanhamento psicológico ajudará o casal, já que o desejo de ter filhos faz parte da história subjetiva de cada um. Ao se deparar com as dificuldades na reprodução, muitos sentimentos podem vir à tona, gerando sofrimento. Não é anormal que a rotina das pessoas que desejam ter um filho seja totalmente absorvida pela ideia da gestação, dificultando ainda mais o tratamento e podendo se tornar um sofrimento no lugar da busca da realização de um desejo.

O psicólogo tem o papel, nesta etapa, de promover um encontro de apoio emocional, no qual é possível falar de emoções sem medo, sem julgamentos ou críticas, através de uma escuta imparcial para que possa haver a elaboração das angústias e dos temores causados por um tratamento tão invasivo. O lugar do psicólogo é o da criação de um espaço de reencontro do sujeito consigo mesmo, dando um sentido novo para sua vida para que, desta forma, possa ampliar seus objetivos e se sentir seguro para seguir seu tratamento e encontrar resultados.

– Qual a orientação nos casos de fertilização in vitro?

Tendo em vista que o corpo e o psíquico funcionam em conjunto, podemos pensar que não existe tratamento para FIV (fertilização in vitro) sem uma dose grande de ansiedade. Os fatores psíquicos produzem fortes impactos sobre a vida do casal, tanto durante quanto depois do tratamento de fertilização. O objetivo da escuta psíquica é trazer à luz a história subjetiva de cada pessoa, os conflitos vividos durante o tratamento de fertilização e os impactos na vida de cada um que passa por esse processo.

– Em casos de infertilidade, a primeira suspeita recai, em muitos casos, sobre a mulher. Ainda existe preconceito em relação à infertilidade masculina?

Ainda, de uma maneira cultural, a mulher acaba buscando primeiro a orientação médica. Desta forma, tanto a investigação como o tratamento, muitas vezes, se inicia com a mulher. Alguns homens apresentam resistência em procurar ajuda médica e, inclusive, em compartilhar com os profissionais suas dúvidas e angústias.

– Como o homem enfrenta o problema de infertilidade e como a terapia ajuda os pacientes?

Algumas vezes com resistência, julgamentos, preconceitos, vergonha e medos. Por isso, a importância da orientação profissional e diálogo tanto nas consultas, como entre o casal. A decisão em ter um filho deve ser a dois. Desta forma, quando há a necessidade de tratamento e acompanhamento, ambos devem fazer parte desse momento, juntos.

– Como a mulher encara a infertilidade e como a terapia ajuda?

Muitas vezes, a mulher acaba sofrendo uma pressão maior tanto pessoal quanto externa. A terapia, neste caso, auxilia a mulher entrar em contato com o próprio desejo, bem como lidar com as expectativas e ansiedades que fazem parte do tratamento, tanto em caso de sucesso quanto de insucesso, inclusive para se avaliar novas possibilidades. É preciso sempre levar em consideração que os tratamentos são, muitas vezes, invasivos e desgastantes.

– O casal deve contar sobre o tratamento para os familiares?

Isto é algo muito pessoal, mas a participação familiar pode contribuir de maneira positiva. Se o casal quiser contar, o importante é que esses familiares tenham o papel de acolhimento, com o cuidado de não ter um comportamento de cobrança ou julgamento.

– Como lidar com sentimentos como ansiedade, expectativas e frustrações, presentes neste período?

Esses diversos sentimentos fazem parte deste período e entender isto já é um primeiro passo. Outro ponto importante é este casal estar em conexão com o seu real desejo e não se deixar levar por uma cobrança ou expectativa externa, seja dos familiares ou sociedade. E um outro ponto importante é o casal entender que existe uma relação intrínseca entre corpo e emocional. Por isso, o tratamento deve ser multifocal, com o objetivo de acolher, trocar e expor os sentimentos através do diálogo a dois. Neste momento, o acompanhamento psicológico é essencial.

– Quando o casal passa por um tratamento e não consegue ter filhos, como lidar com a frustração? Qual o momento ideal para tentar novamente?

Lidar com a frustração pode acarretar impacto tanto emocional como físico. O apoio emocional é essencial neste momento, já que, muitas vezes, é vivenciado o luto de um sonho. O acolhimento deste sentimento e também a perspectiva de novas possibilidades auxiliam o casal a passar por este momento. Com relação ao momento de tentar novamente, devem ser levadas em conta tanto questões físicas quanto emocionais. Muitas vezes, esse casal precisa de um tempo para se restabelecer e avaliar como quer seguir o tratamento nessa tentativa.

– A mulher que deseja ter filho sozinha (produção independente) precisa de apoio psicológico?

O apoio psicológico neste caso é importante, pois a mulher viverá a maternidade de uma maneira diferente e muitas vezes sozinha sem muito apoio e acolhimento. O acompanhamento poderá ser realizado desde quando a mulher pensa em buscar por este tipo de tratamento, bem como durante todo o processo, até o puerpério. São momentos intensos em que as emoções variam frequentemente. Desta forma, o acompanhamento psicológico pode auxiliar muito.

– É possível citar alguns casos atendidos (sem citar nomes ou identificar pacientes) para exemplificar as principais angústias do homem e da mulher quando não conseguem ter filhos de forma natural e como foram superadas?

Muitas vezes, o casal chega ao atendimento bastante culpado ou querendo se julgar por isso. Percebemos, ao longo do tratamento, que o vínculo entre o casal e o entendimento entre os dois auxiliam tanto na realização do sonho como para melhorar a relação conjugal.

Jornalistas responsáveis: Flávia Paschoal/Marisa Massiarelli Setto – Toda Mídia Comunicação

Crédito da foto: Divulgação