19 de março de 2019

Mulher com endometriose pode e deve ter qualidade de vida

Ao receber o diagnóstico de endometriose, uma série de perguntas passa pela cabeça das pacientes. Por que tenho esta doença crônica? Como vou conviver com os sintomas? O que terei que fazer para ter qualidade de vida?

Nesta entrevista, concedida ao site do Centro de Reprodução Humana de Piracicaba, a psicóloga Marília Manarim Cordeiro (CRP 06/107430), da Santa Casa Saúde Piracicaba___ instituição da qual o Centro de Reprodução Humana de Piracicaba é parceiro__, fala sobre como o acompanhamento psicológico e a mudança de comportamento podem contribuir no controle desta e de outras doenças crônicas. Confira:

– Para garantir qualidade de vida à paciente, o tratamento da endometriose deve ser feito de forma multidisciplinar. Como a psicologia contribui neste tratamento?

O tratamento multidisciplinar atende de maneira mais abrangente e individualizada às necessidades e demandas da paciente. O acompanhamento psicológico se torna necessário se analisarmos o fato de que é impossível realizar uma dissociação entre corpo e mente: tudo o que acontece no aspecto físico exerce influência sobre o emocional, e vice-versa.

Para que o tratamento da endometriose tenha o melhor resultado, é fundamental que as atenções e orientações estejam voltadas para além do órgão acometido, para a mulher como um todo, considerando o contexto e meio em que ela está inserida.

– A paciente com endometriose deve fazer terapia por quanto tempo?

O tempo do processo terapêutico varia diante de cada caso. O importante é a equipe salientar a esta paciente que o tratamento multidisciplinar e as mudanças de hábitos serão imprescindíveis para sua melhora.

– Estudos apontam que o perfil da mulher que tem endometriose ‘alimenta’ a doença, que é crônica. Geralmente, as pacientes são perfeccionistas, tanto no trabalho quanto na vida pessoal. É possível mudar este perfil?

Levando em consideração que cada pessoa é única e reage às situações de um modo inteiramente particular, o profissional de psicologia vai trabalhar todos os aspectos relacionados à convivência com a endometriose. O objetivo será de resgatar autoestima e recuperar relacionamentos interpessoais, ou seja, a relação dessa mulher com ela mesma, com o meio em que vive e sua história, possibilitando que a paciente encontre formas de expressar suas angústias e dores emocionais. Este é um passo importante rumo à qualidade de vida. Manter o equilíbrio emocional também pode funcionar como um método de prevenção ao estresse e contribuir para a mudança de um perfil perfeccionista.

– Podemos dizer que o avanço da endometriose em função do perfil psicológico da paciente é um exemplo de que o corpo é reflexo da mente?

O paciente deve ser visto como um todo, sendo vários os fatores que devem ser analisados, como o histórico genético, estilo de vida, cuidados alimentares, atividade física e o emocional. Porém, é notório que um aspecto vai se relacionando ao outro. Por exemplo: se não cuido da minha alimentação e não tenho tempo para o lazer ou mesmo para fazer uma atividade física, isto pode dizer muito sobre como está sendo minha rotina e sobre a relação que estou tendo comigo mesma e, por consequência, com meu corpo.

Hoje em dia, não temos mais como tratar os pacientes de uma maneira unilateral e restrita. É necessário conhecê-lo e, dentro da psicologia, entender também a simbologia e consequências que aquela doença e sintomas trazem.

– A partir do diagnóstico da endometriose, a paciente deverá fazer uma revisão de postura de vida?

Tanto o diagnóstico como os próprios sintomas, que vão impactar na sua rotina, irão solicitar que esta paciente avalie o seu estilo de vida e cuide mais de si. Isto, provavelmente, exigirá mudanças de comportamento e hábitos.

– O que leva a mulher a ter um perfil perfeccionista?

Falando de maneira geral, o contexto social vivido atualmente trouxe à mulher a exigência e autocobrança, o que impacta em uma rotina de estresse, ansiedade, busca intensa por resultados, metas e padrões, muitas vezes irreais e idealizados. O resgate do feminino faz parte de um processo de mais aceitação, individualização e autoconhecimento.

– A atividade física contribui no tratamento?

Muitos estudos já comprovam a relação da atividade física na melhora de tratamentos de doenças crônicas. Isso se deve especialmente à liberação da endorfina diante da atividade física e suas consequências para o funcionamento do corpo, o que inclui a sensação de bem-estar. De maneira geral, a paciente que está tendo um a rotina de atividade física já está tendo uma consciência corporal melhor e cuidando de si.

– Qual o papel da família na qualidade de vida da paciente com endometriose?

O apoio é essencial, tanto da família como de amigos para que a paciente não se sinta sozinha e com sentimentos de inferioridade.  A ajuda e compreensão dessa rede de apoio auxiliam para que a paciente se sinta mais segura para realizar as mudanças necessárias e enfrentar o tratamento a longo prazo.

A família de pacientes crônicos só consegue ajudar quando conhece de fato a doença e entende a necessidade do tratamento, senão pode interferir de maneira errônea, gerar ainda mais cobrança e angústia.

– Qual é o papel do marido? Para que ele colabore, é ideal que se realize algumas sessões de terapia com o casal?

Como a endometriose traz aspectos tanto emocionais quanto sintomas físicos, isto se estende à vida a dois. Por exemplo: um dos sintomas que as pacientes podem apresentar é ter dor durante a relação sexual e isto pode interferir na vida do casal, já que algumas mulheres simplesmente evitam a relação devido à dor e seus parceiros podem não entender, cobrar ou até mesmo se afastar.

Outro exemplo é a possibilidade da infertilidade, um fantasma que angustia muitos casais, que se sentem inferiores e tristes diante do sonho da paternidade e maternidade e acabam se culpando.

Desta forma, o diálogo entre o casal e a busca de informações e orientações com a equipe de profissionais que está cuidando da paciente é de grande valia, para que a compreensão aconteça e os dois possam, juntos, buscar a ajuda necessária.

O acompanhamento psicológico para o casal só se faz necessário caso os dois sintam a necessidade de receber orientação emocional mais especifica para lidar com este enfrentamento.

– A endometriose também pode provocar infertilidade. Como o casal enfrenta esta notícia?

Se existe neste casal o desejo de ter um filho, isto pode gerar um período que vem acompanhado de medos, culpas, sentimento de inferioridade e até raiva. O mais importante é entender as necessidades deste casal, para que possa ser encaminhado para o tratamento mais assertivo, e ter a consciência de que será um período muito intenso. Assim, mais uma vez, o cuidado deve ser multifocal. Cuidar emocionalmente deste casal e da relação conjugal em si faz toda diferença tanto para os resultados, como para a conduta.

– É possível citar casos em que a terapia contribuiu para garantir qualidade de vida às pacientes com endometriose?

De maneira geral, posso citar que nos casos em que estas pacientes aceitam e se envolvem no tratamento, os resultados são notórios.

Com o apoio profissional, elas conseguem participar melhor do tratamento e lidar com as demandas, conquistas e frustrações de uma maneira muito melhor. Ter saúde e qualidade de vida é essencial a todos.

 

Jornalistas responsáveis: Flávia Paschoal/Marisa Massiarelli Setto – Toda Mídia Comunicação