29 de agosto de 2016

A pílula da revolução: cuidados com o anticoncepcional

A criação da pílula anticoncepcional se encaixa perfeitamente num contexto que a história chama de “revolução sexual”. Há quase 60 anos ela existe (foi lançada em 18 de agosto de 1960 nos Estados Unidos), e mudou os hábitos sexuais do mundo ocidental. O primeiro contraceptivo oral lançado foi o Enovid-10, comercializado nos Estados Unidos. A partir de um método simples e seguro, iniciou-se a tão sonhada contracepção oral, cujos testes já haviam começado na década de 1950 com a progesterona sob forma injetável, o que não agradara os cientistas da época.

Hoje, é tão comum o uso de pílula anticoncepcional para evitar a gravidez que algumas discussões passam despercebidas. Porém, seu uso tem merecido muita atenção, pois além dos benefícios, pode significar, caso não tenha um acompanhamento médico, problemas para a mulher em idade fértil.

Cada vez mais, a sociedade atual exige um planejamento familiar. Planejar significa, em linhas gerais, a busca de qualidade de vida, ter menos filhos. De acordo com pesquisa do IBGE, a proporção de famílias formadas por casais sem filhos cresceu 33% no Brasil entre 2004 e 2013.

Ao longo desse período, houve queda de 13,7% na proporção dos casais com filhos (de 50,9% para 43,9%). Já o número de casais sem herdeiros cresceu de 14,6% para 19,4%. Em 2013, um em cada cinco casais brasileiros não tinha filhos, segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2014. Direta ou indiretamente, os métodos contraceptivos têm ampla relação com os dados acima.

Métodos

O diretor do Centro de Reprodução Humana de Piracicaba, Paulo Arthur Machado Padovani é médico cooperado da Unimed Piracicaba. Formado pela Faculdade de Medicina de Jundiaí, é ginecologista com título de especialista em reprodução humana. A lista de anticoncepcionais é longa, reforça ele.

“Anticoncepcionais são métodos utilizados para evitar a gravidez. A lista inclui DIU (dispositivo intrauterino), implante hormonal no braço, adesivo, anel vaginal, camisinha e as pílulas anticoncepcionais, entre outros. Os anticoncepcionais hormonais, como as pílulas, têm a finalidade de inibir a ovulação. É importante ressaltar que apenas a camisinha é suficiente para evitar a gravidez. E protege de doenças sexualmente transmissíveis ao mesmo tempo”, explica.

É fundamental consultar um ginecologista para decidir o método contraceptivo adequado. A mulher deve esclarecer todas as dúvidas sobre os métodos disponíveis para, junto com o ginecologista, decidir qual o melhor para ela.

“No caso da pílula anticoncepcional, o médico fará a análise dos prós e contras, inclusive alertando as pacientes que não podem fazer o uso da medicação. É importante destacar que os profissionais seguem os Critérios Médicos de Elegibilidade da Organização Mundial da Saúde, que orientam o uso dos métodos anticoncepcionais”, diz o médico.

De forma geral, explica Padovani, a pílula anticoncepcional é contraindicada para fumantes, hipertensas, portadoras de diabetes, obesas e a mulheres que têm enxaqueca com aura, histórico familiar de doenças cardíacas e vasculares, como trombose. “No caso de fumantes, é preciso abandonar o tabagismo, pois a combinação do cigarro com a pílula aumenta o risco de trombose”, afirma Padovani.

Ele diz ainda que outra vantagem das pílulas, além de evitar a gravidez, é que regulariza o fluxo menstrual. “Com a pílula, a pele fica menos oleosa, os sintomas da tensão pré-menstrual (TPM) são reduzidos, o risco de ter câncer de ovário e de útero também é reduzido. No caso das mulheres acima de 40 anos de idade, a medicação protege contra a perda de cálcio, que poderia provocar osteopenia ou osteoporose. Em alguns casos, a medicação é indicada para o tratamento de ovário policístico e de acne”, aponta o médico.

“Temos conhecimento de que existe um percentual muito alto de compra das pílulas anticoncepcionais sem prescrição médica. É importante deixarmos muito claro que a pílula é uma medicação, que tem prós e contras. Se usada sem avaliação médica, pode ter consequências indesejadas, já que os efeitos colaterais são diferentes de pessoa para pessoa. De acordo com pesquisa recente, 15,7% da população na fase reprodutiva opta pelo uso de pílula anticoncepcional no Brasil”, informa o médico.

AVC

Theo Germano Perecin, integrante do corpo médico da Santa Casa de Piracicaba, é neurologista clínico, titular da Academia Brasileira de Neurologia e membro da Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares. Ele chama a atenção quanto aos casos de Acidente Vascular Cerebral Isquêmico (AVCI) numa correlação com os anticoncepcionais.

“A medicação, como todas as demais da medicina, tem seus benefícios e riscos. Sempre deve ser bem ponderada, avaliando o que é mais importante numa determinada situação. Portanto, não há motivos para alarde ou medos exagerados. Os hormônios anticoncepcionais são importantes em diversos tratamentos médicos.

“O AVC foi a principal causa de óbito no Brasil até recentemente. Os dados atuais o mantém como segunda causa. A Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares vem fazendo trabalho importante há cerca de 20 anos, promovendo encontros médicos, treinamentos e orientação para um melhor atendimento ao paciente com AVC no Brasil. Dentre as ações, a divulgação e orientação da conduta de todo cidadão frente ao AVC é prioritária”, analisa Perecin.

Procure sempre um ginecologista

“O uso de anticoncepcionais por meio de hormônios, sejam eles comprimidos, injetáveis ou implantes, pode aumentar o risco de trobogenia, ou seja, facilitam a formação de trombos ou coágulos dentro dos vasos sanguíneos”, explica o médico Theo Germano Perecin, da Santa Casa de Piracicaba.

“Assim, nos casos de Acidente Vascular Cerebral Isquêmico (AVCI), onde há obstrução de fluxo de sangue no vaso sanguíneo, que corresponde a cerca de 80% de todos os AVC’s, as mulheres que usam esse medicamento ficam expostas a um risco maior. Também é importante salientar que o risco aumenta quando há associação de outras doenças como hipertensão arterial não tratada, diabetes, alterações importantes nas taxas de colesterol e triglicérides, antecedentes familiares de doenças vasculares, doenças reumáticas e autoimunes, enxaqueca, tabagismo, drogas, entre outros”, reforça Perecin, a exemplo do que expôs Paulo Arthur Machado Padovani, médico da Unimed, também nessa reportagem.

É importante que as mulheres procurem orientação de seu médico, no caso, o ginecologista, antes de começar a usar algum anticoncepcional. “O profissional pode fazer uma análise se a paciente estará em risco maior ou não”, afirma Perecin.

As mulheres que já usam precisam ficar atentas em situações como flebites, que são inflamações em veias, a presença de outras doenças ou situações descritas acima, e piora nas enxaquecas.

“No caso de enxaquecas, é preciso observar não só a piora na frequência e dor, como também em sintomas neurológicos associados como de visão, formigamento em partes do corpo, principalmente pouco antes da dor de cabeça. Muitas vezes é necessário a interrupção do hormônio”, alerta o médico

Jornalistas responsáveis: Flávia Paschoal/Marisa Massiarelli Setto – Toda Mídia Comunicação

 

DR. PAULO ARTHUR MACHADO PADOVANI
Ginecologista | CRM 39.536

• Formado pela Faculdade de Medicina de Jundiaí
• Pós-graduado lato-sensu pela Faculdade de Medicina de Jundiaí e Associação Instituto Sapientiae
• Especialista em ginecologia e obstetrícia, e habilitação em laparoscopia
• Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida
• Possui título de Capacitação em Reprodução Assistida emitido pela Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida