18 de março de 2016

Dos 20 aos 40

Apesar de o desejo de se tornar mãe não mudar de acordo com a idade, o organismo feminino reage de maneiras diferentes para promover o desenvolvimento do feto em cada época da vida. Por isso, conheça alguns prós e contras de se tornar mãe aos 20, 30 e 40 anos.

Quem sonha ser mãe com certeza já se pegou perguntando qual seria o momento ideal para realizar esse desejo: depois de fazer aquela viagem tão aguardada? Quando conseguir o emprego dos sonhos? Talvez quando estiver financeiramente estabilizada? E se a pessoa certa não tiver aparecido ainda? Muitas questões são pertinentes ao assunto e por isso, muitas vezes, a gestação acaba sendo adiada ou ficando para segundo plano. Outras vezes, porém, ela ocorre de maneira inesperada, quando o psicológico não está lá muito preparado para lidar com a situação. A verdade é que cada fase da vida revela vantagens e dificuldades particulares e é preciso conhecer a fundo quais são estas características para poder fazer uma escolha consciente.

De acordo com a ginecologista e obstetra Milena Elisa Goes Dias Silva, especializada em histeroscopia e pós-graduada em infertilidade e reprodução humana, que atua no Centro de Reprodução Humana de Piracicaba, o período ideal para gerar uma nova vida, do ponto de vista físico, é de 20 a 29 anos de idade. “Antes, o aparelho reprodutor feminino não está totalmente desenvolvido e, depois, há uma regressão na fertilidade da mulher. O problema de adiar muito a gestação é conseguir engravidar”, afirma. A especialista explica que é em torno dos 25 anos que a fertilidade feminina começa a cair e, após os 35, sofre declínio acentuado.”

O fator idade é importantíssimo para as mulheres. Após os 37 anos começa a piorar a qualidade dos óvulos e há uma maior incidência de alterações genéticas. Para os homens, esse mesmo fator começa impactar após os 45 anos. Começam, a partir deste período, apresentar números maiores de alterações genéticas”, comenta.

Nos casos de infertilidade, Milena orienta que os procedimentos na área de reprodução humana deveriam ser realizados no início da vida reprodutiva do casal, de preferência antes dos 30 anos, período em que a reserva ovariana é melhor, assegurando melhores resultados.

Gravidez tardia e comprometimento da fertilidade

“Hoje muitas mulheres optam por estudar e ter posição consolidada no mercado de trabalho antes de decidir casar e ter um filho. É uma questão de comportamento na sociedade, que mudou principalmente nas últimas décadas”, diz a médica sobre as mulheres optarem por ter uma gestação cada vez mais tarde. Entretanto, Milena alerta que, geralmente, o limite máximo da gravidez pode ser considerado 45 anos e em alguns casos muito excepcionais pode chegar até os 50 anos. Mas, “neste último caso, observamos uma maior incidência de doenças cardiovasculares (varizes, trombose, hipertensão,derrame, infarto, etc.), alterações metabólicas (diabetes, alterações renais), que complicam sobremaneira o desenvolvimento da gestação, bem como oferecem risco à própria vida da gestante. Por isso, a gestação após os 50 anos é considerada muito arriscada.”

Quem escolhe por ser mãe depois dos 40 já precisa ter atenção redobrada a alguns aspectos inerentes a essa idade. Acontece que, em uma gravidez nesta faixa etária, aumentam as chances de se desenvolver um bebê com síndrome de Down ou outra alteração cromossômica. “A síndrome de Down consiste num erro genético durante a formação do feto. Geralmente, uma célula normal possui 46 cromossomos, divididos em 23 pares. Por alguma causa ainda não esclarecida pode acontecer uma falha no desenvolvimento embrionário criando um cromossomo extra”, esclarece Milena.

De acordo com o que explica Milena, a mulher nasce com todos os óvulos que vai usar e vai perdendo-os ao longo da vida. Na barriga da mãe, ela carrega entre 6 milhões e 7 milhões de óvulos, aproximadamente. Quando nasce, a quantidade cai para 1 milhão a 2 milhões. Quando chega à puberdade está com 400 mil óvulos, em média. E a queda continua: a cada ciclo menstrual natural, 1.000 óvulos são estimulados espontaneamente, mas somente um deles chega à ovulação. Os outros 999 são perdidos, caem na cavidade abdominal e são absorvidos pelo organismo. “Após os 35 anos de idade começa haver uma redução importante dos melhores óvulos e, após os 40, sobram muito menos. Geralmente, após essa idade, os que restaram são os de pior qualidade e mais difíceis de serem fertilizados e gerarem uma gravidez”, aponta.

Embora o envelhecimento do organismo e, consequentemente, a impossibilidade de gerar uma nova vida sejam inevitáveis, de acordo com a especialista, existem alguns hábitos que ajudam a prevenir a infertilidade, como evitar substâncias tóxicas como nicotina, bebidas, drogas lícitas e ilícitas, doenças relativas ao trabalho, obesidade e estresse. “É também ideal que os casais tenham dieta saudável e bons hábitos, como a prática regular de exercícios físicos”, recomenda.

Fase a fase

Cada época da vida guarda experiências diferentes no que concerne à gravidez. Conheça as principais características, dificuldades e benefícios de ser mãe aos 20, 30 e 40 anos.

Aos 20 anos

Se somente o ponto de vista físico fosse considerado, pode-se dizer que esta é a faixa etária ideal para encarar uma gravidez. Nesta idade, segundo Milena, a fertilidade é elevada e o risco de complicações, como hipertensão ou diabetes gestacional, é baixo. “Após a gravidez, as mulheres mais jovens têm mais facilidade de recuperar o corpo de antes. A chance de o bebê ser saudável também é maior já que os óvulos são menos propensos a erros cromossômicos”, complementa, ressaltando que os riscos, nesta idade, são praticamente nulos, a não ser em casos específicos.

No entanto, “independente da idade, o acompanhamento pré-natal com um médico especialista é fundamental”, observa a ginecologista.

Embora as condições físicas sejam enormemente favoráveis para a gestação, sobretudo no que diz respeito à fertilidade, nem tudo podem ser flores nesta fase, pois é comum que a gravidez não seja planejada e, por isso, pode haver dificuldades em lidar com a gestação.

Aos 30 anos

Milena comenta que, normalmente, quem espera para ter filhos depois dos 30 anos são mulheres que trabalham muito e, por causa disso, elas precisam diminuir o ritmo, porque muita agitação pode reduzir a quantidade de líquido em volta do bebê. “Dos 30 aos 35 anos, a medicina ainda considera uma época propícia para a gestação. Este também é o período que muitas mulheres consideram o melhor para a maternidade. Muitas já se casaram e têm posição consolidada no mercado de trabalho. Mas vale lembrar que depois dos 35 anos as chances de uma gravidez natural começam a diminuir”, diz Milena.

É depois dos 35 também que os riscos de diabetes gestacional são considerados altos. Por isso, a gestante deve fazer todos os meses um exame de glicemia em jejum para dosar o nível de açúcar no sangue e, por volta de 28 semanas de gestação (sete meses), um teste de tolerância à glicose. “Além disso, é preciso controlar a pressão arterial. Tudo deve ser feito de acordo com a orientação do ginecologista que faz o pré-natal. Com todos os cuidados tomados, não há riscos para o bebê”, aponta a especialista.

Aos 40 anos

Na faixa dos 40 é que “o bicho pega”. Segundo Milena, após essa idade, na maioria das vezes a gestação não ocorre de forma natural e é preciso recorrer a tratamentos específicos em reprodução humana. Da mesma forma, os riscos proporcionados pela gravidez serão mais altos do que os de uma mulher de 20 anos estaria sujeita a enfrentar.

“Para a mulher, a idade avançada está associada ao aumento na incidência de diabetes gestacional, hipertensão específica da gravidez, abortamentos e prematuridade. Para o bebê, os riscos estão associados a alterações cromossômicas, como a síndrome de Down”, afirma Milena.

Por outro lado, a especialista conta que nesta fase a mulher está mais madura e tem outra visão do que é ser mãe. “A gravidez aos 40 pode ser mais desejada e curtida, tanto pelo homem como pela mulher, quando o casal tem estabilidade financeira”, diz.

A única recomendação da profissional é a de que o planejamento e o pré-natal sejam acompanhados por ginecologista que tenha experiência com pacientes nesta idade, pois um acompanhamento médico adequado reduz riscos tanto para a mãe quanto para o bebê. “Se a mulher chegou a essa idade sem ter se tornado mãe e ainda deseja engravidar, é importante buscar a ajuda de um profissional especializado. Depois, durante a gestação, o pré-natal é muito parecido com o tradicional, mas vai exigir alguns exames a mais para avaliar a saúde da mãe e do bebê”, finaliza.

(Matéria publicada na revista Arraso Filhos de março de 2016)


DRA. MILENA ELISA GOES DIAS SILVA

Ginecologista | CRM/SP 141.626

• Formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
• Pós-graduação em infertilidade e reprodução humana pela Faculdade de Ciências médicas da Santa Casa de São Paulo/Projeto Alfa